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By Ferramentas Blog

domingo, 27 de junho de 2010

A dúvida.

Giovanna Ricci estava inquieta em seu apartamento,no centro de Palermo.
Trabalhava insistentemente no seu novo trabalho artístico.Afinal lutou duramente para chegar em Palermo e viver disso,agora tinha que fazer valer o esforço.
Mas naquele momento,ela não estava a trabalhar,ja tinha finalizado um trabalho de pesquisa,e estava em seu"horario de descanço".
Mas sentia-se encomodada,aflita,com um homem.
Desde sua chegada á capital,ela tinha se envolvido com alguns rapazes,até namorou um,mas na realidade nunca amou nenhum deles.
O único amor que sentira por um homem da capital,foi por ele,o pretenso autor.Mas era um amor inocente,quase infantil.
Via na figura daquele rude homem,um protetor,um companheiro de todas as horas.Homem esse que certa vez fora capaz de proteger-lhe até de seu então namorado.
Ela não o via como parceiro sexual,até porque nunca sentiu o menor tesão por ele.Mas sentia um intenso amor por ele,totalmente fraternal.
Porém ela não entendia a rebeldia daquele homem com o mundo,e o porque ele tratava com tando rancor algumas figuras do passado(algumas dessas ela nunca nem entendeu porque ele odiava).
E aquele último dialogo entre eles lhe foi intrigante,de um tom quase soturno.Pensando a respeito aquilo lhe cortava o coração.
Ama-lo não era o bastante,aquele rapaz parecia se defender do amor de Giovanna,embora também a amasse de forma tão intensa e fraternal,quanto ela.
Mas sua visão filosófica de mundo o impedia de se aproximar tanto quanto ambos gostariam.
E depois aquele diálogo......Aquele em que ele praticamente abdicava de seu amor.
Giovanna via duas escolhas:esquecer os momentos passados entre eles,e entregar-se de vez a sua profissão e aos seus amores noturnos da noite de Palermo.Ou não permitir que o nosso autor se afastasse dela,o fazendo cair na real e o convencendo do quanto eram carentes e dependentes um do outro.
E aquela era uma dúvida que a atormentaria por muito tempo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A incompreensível atuação de Lippi,e a queda.


A seleção italiana perdia na ultima rodada para a Eslováquia por 3 x 2,e se despedia precocemente da copa.
Mas a queda começava meses antes,no dia da convocação.
Antes eu devo dizer que minha opinião antes do inicio da copa( e expressada aqui)era de que Lippi,e Fabio Cappelo,eram os melhores treinadores que estariam na copa(juro que não é corporativismo).E reafirmo minha opinião.
E mais;eu critiquei aqui nesse blog a convocação da Azzura,as ausencia e presenças,e também as escalações designadas por Lippi,mas salientei que minha confiança em Lippi era total,e que se aquelas eram as escolhas dele,eu confiava.
Pois bem,o tempo mostrou que ele estava realmente errado,e mesmo assim eu reitero;eu confio em Lippi.Ele é craque,levou seu time ao ultimo titulo mundial,e é sim um herói italiano.
Isso é convicção meus amigos,pois eu não sou volúvel como as massas decadentes dessa(cada vez mais)decrepta "república".
Agora vamos aos fatos:A convocação(ou equivocação?),dos jogadores foi incompreensível.Del Piero fora?pela idade não pode ser,ele é um ano mais novo que o capitão Cannavaro,e pela média de idade do time,isso não poderia ser o problema.Ele ainda vive boa fase,foi o artilheiro da Juventus na ultima temporada(e não o "glorioso"Amauri),e não a toa foi a principal reclamação dos italianos.
Giuseppe Rossi fora?cara,ele titular do Villareal,o reserva?Nilmar.Jogou muito na ultima copa das confederações,como pode não servir nem para o banco?Até porque é um atacante jovem,habilidoso e canhoto,todas características ausentes nesse grupo fracassado da copa.
Perotta olha os jogos pela tv?piada.Também é jovem,foi muiot bem na ultima copa,onde foi titular,e vive boa fase na Roma.Quem é reserva na maia cancha da Roma?Júlio Baptista.
Fábio Grosso,cade ele?Foi um dos melhores jogadores da última copa,não é um jogador de idade avançada,e é titular do Lyon,mas aí pode ser o motivo.Existe resistência na Itália a jogadores que atuem fora do país(para nós brasileiros isso é no mínimo irônico).
Outro jogador,este menos conhecido do torcedor brasileiro,Antonioni.Lateral direito,jogador muito jovem,e tão talentoso que no Milan fez o Zambrotta ir para a esquerda,para ele poder jogar pela direita.INESPLICÁVEL sua não convicação,até porque foi testado pelo Lippi nas eliminatórias e não desepcionou.
Uma ausência que não consigo também entender desde a copa passada é a de Vicenzo Iaquinta.Poxa vida,o jogador é terrivelmente deficiente(não a toa foi reserva de Amauri na Juve),tem uma dezena de jogadores melhores na Itália,e inclusive 2 melhores no grupo e que foram reservas;Pazzini,artilheiro do último Calccio e Quariarella,este eu considero um excelente jogador,que deveria ser titular absoluto da Squadra.
Muitos comentaristas esportivos(fraquíssimos)tem destacado a lesão de Pirlo e as não convocações de Totti,Toni e Nesta.
Vamos por partes:Totti e Nesta decidiram de última hora que gostariam ir a copa,e isso seria injusto com os que disputaram as eliminatórias.
Quanto a Toni,concordo que poderia ir,mas ele vinha de má fase,então posso compreender o Lippi,mas realmente com o Iaquinta no ataque,prefiro meio Toni.
Quanto a pirlo,inegavelmente foi a aus~encia mais sentida,porém,isso poderia explicar uma eliminação em semi-finais talvez,mas na primeira fase,não deveríamos depender dele,se dependemos,então o time era éxtremamente frágil.Além disso seu substituto Montolivo,foi bem.
Outra coisa muito estranha,por que o Lippi insistiu em jogar no 443?ele abriu mão da principal característica italiana que é a defesa.
Essa copa foi estremamente estranha para a nação italiana,e a imprensa italiana prevê que os jogadores decerão no aeroporto,sob forte protestos da torcida.
Espero que não julguem mal,mas definitivamente os italianos não sao os sul-africanos(estou especificando um país,e não o continente)que protagonizaram um dos maiores fiascos de todas as copas e saíram as ruas para comemorar.

Surrealismo total.


Estava eu dormindo no trabalho(sim,e daí?),quando acordo e escuto a voz de Sergio malandro,em uma apresentação de stand up comedy(solução momentaneamente milagrosa para pretensos humoristas),e percebo que é o programa do(insuportavelmente irritante)Jô.
Cara,tive imensas dificuldades em perceber que ja tinha acordado.Provavelmente foi o momento mais surreal do ano até agora,para mim.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Abdicação

Nosso autor desconhecido teve uma amiga(teve outras é claro,mas essa foi especial),e teve com ela uma peculiar relação.
Ela era uma artista proeminente,vinda de uma cidade do interior da Sicília,para a capital Palermo,onde nosso autor tinha nascido e crescido.
Eles dois tiveram uma relação intensa,e somente de amizade,bastante incomum.Eles praticamente não viviam um sem o outro,e não havia atração sexual entre eles,sendo que ela,na verdade,era uma bonita mulher.
A cidade da qual ela vinha,era de ricos donos de terra,criadores de gado.E ela,adepta a vida moderna e corrida da cidade,sentia-se fora de rumo.Tendo como meta,a ida a Palermo.O que conseguiu,assim como a maioria das coisas que tentou durante a vida.
Ja o nosso amigo é claro,nunca foi um rapaz atraente.Era alto e forte,não tinha nenhuma deficiencia no rosto,mas certamente não era bem apessoado.Mas ele não tinha ilusões nesse sentido,ele aceitava sua aparencia.
Ele tivera relações ardentes e intempestivas com outras mulheres,e nesses casos o sexo era o grão-mestre dos casos.Em alguns casos ele nem se dava bem com elas,nem se gostavam.Em uma das vezes,ele nem suportava sua parceira.
Mas com essa amiga era tudo tão diferente.Sentia-se aliviado e reconfortado na presença dela.Chegava a ser uma presença materna as vezes.Ele chegara a consultar as opiniões dela sobre assuntos pessoais seus,coisa que nunca fizera com outras pessoas,ja que julgava sua vida problema exclusivo dele.
Mas havia um problema em sua amizade.O talento dela,como ja dissera antes,era proeminente,e ja começara a se tornar reconhecida(não a toa ela por tanto tempo sonhou morar na capital).O tempo entre eles tornara-se ralo.
Isso acontece com amigos não é?Mas não era assim tão simples.Ele sabia o quanto ela era capaz,e o quanto era necessário a ela conviver com pessoas que o ajudassem a alavancar os seus sonhos.
Ele não conseguia se sentir desnecessário em um lugar,ainda mais quando era esse lugar,a vida de uma pessoa,e uma pessoa que ele tanto amava.
Nosso autor estava a trabalhar em um livro,e isso o deixava livre para escolher horarios,mas ele sabia que a sua realidade,era particular.
Sentia o coração pesar,não a toa ele sempre tentara evitar contatos sentimentais com as pessoas,ele não sabia se relacionar,e depois que o fazia,não gostava de se sentir ligado a elas,tinha a impressão de que isso cortava sua autonomia.Sentia-se dependete dela naquele momento da vida.E sabia que ela prendera-se a ele.
Seus caminhos se separavam,mas não queriam aceitar.Ele pensou,pensou,e sofreu.Tudo o que acontecia era contra seus princípios.
Baixou a cabeça,respirou fundo,e decidiu de acordo com o forte amor que sentia por ela,em seu peito;a deixaria partir,mesmo que ela não soubesse.E nesse momento,misturando dor e sofrimento,um caloroso"eu te amo"foi sentido por ele,enquanto via em sua memória a imagem de seu fraterno amor.
Mas é apenas uma estória siciliana.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Relações.

Curioso,como a sua ética pessoal ditava os rumos da vida desse incomum autor.
Desde a primária juventude,abriu mão de aconhegos e confortos,e prol de suas idéias filosóficas,raramente entrava em acordos.Com ele era conquistar com as própias mãos,ou perecer em seu sofrimento particular.Mas fosse como fosse,ele faria seu caminho.
Não aceitava intromissões de familia,amigos ou divindades.Dizia ele ser o único responsável(e dono)por sua vida.Nunca entendeu as divindades,e quando perguntado sobre o tema,confuso,se dizia ateu.
Mas sabe o que é mais curioso?a forma como ele fora mudando sua visão ética,que seguia porém sendo a luz guia de sua vida.
Antes de mais nada,na sua pré adolescencia,ele se sentia mais do que tentado,mas sim,na obrigação de se retirar do lar em que cresceu.Mas quando a hora estava prestes a chegar,pensou em uma peripécia.Se sentia usurpado por seus progenitores,e resolveu que pegaria de volta uma parte do que lhe foi tirado em suas primeiras décadas,já que sonhar em pelo menos metade,seria por demasia uma utopia.
Tomou nova postura,cravando-lhes os dentes em seus bens usuais.Negava-se a dividir as despesas e passou a portar-se como um sangue-suga,e o pior é que ele nunca negou essa postura.Ele sabia que isso além de lhe ser conveniente,fazia dor a eles,pois ele sabia o quanto aquelas pessoas eram apegadas a cada migalha de centavo.
Ele não não podia fazer nada sentimentalmente,pois essa parte ele não tinha muito desenvolvida.E agindo assim,ele não ganhava muito,mas pelo menos isso o ajudava a contruir um rumo a uma nova vida que ele planejava,e em seus profundos pensamentos,nem assim eles estariam quites.
Além dessa mudança de comportamento,nosso autor também tomou medidas para deixar a relaçao entre a triade ao menos congelada,já que antes disso era uma relação que oscilava entre o ruim e péssimo.E assim passou a se dirigir o mónimo possível a eles,além de se esquivar de direcionamentos a ele.
O estranho,era que aquelas pessoas sentiam falta das discussões.Preferiam brigar(que era o que acontecia rotineiramente),do que se tratar amenamente.
Naquele momento ele percebeu o que na verdade ja sabia,mas ao menos viu aquela verdade sublinhada;pessoas passionais não veem brigas como um problema,pra elas frases como,"a gente briga mas se ama",ditavam um rumo que faziam com que elas seguissem suas vidas.Mas para ele,um racional convicto,aquela visão era absurda,beirava o insano.
Pelo menos aquele novo rumo que ele dava a sua relação,o fazia sentir mais digno a cada dia que levantava de sua cama.
Isso o trouxe porém alguns problemas também.Mas convenhamos ele por si só,ja é um cara que tem problemas.
Mas essas são outras estórias.Estórias sicilianas.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O autor desconhecido.

Ele era um postulante a autor,de cinema,livros,ou o que for que fosse,não interessa,ele gostava de criar estórias.
E estava sentado à mesa,debatendo com seus colegas o roteiro de um novo curta-metragem.Ele inegavelmente,já tinha feito muito por aquela estória,esmerado-se para que todos os problemas da trama fossem sumindo.Mas aquela discussão desanimava-o.Nela,percebia pessoas que ao não construír insistiam em atrasar o progresso a fim de se sentir úteis.Posso questionar esse roteiro,afinal somos colegas não é?essa pergunta o irritava,pois ele sentia que esse tipo de questionamento,levava a um caminho em que seu trabalho era destruído,e os seus colegas,poderíam se sentir úteis,como se fossem supervisores,intelectuais que pudessem dar um carimbo final a estória.
Em dado momento,a discussão se acirrou,ele sabia que alguns colegas tinham trabalhado tão árduamente quanto ele,e esses lutavam pela integridade do produto,mas ele entregou-se,já não via mais sentido naquilo tudo.Já tinha se convencido que seu trabalho iria inevitavelmente ser invadido e desvirtuado,portanto decidiu que fosse filmado como fosse,os senhores da terra de decidissem.
A partir daquele momento,ele,que era um dos mais ativos da discussão,se calou.A voz dele não era mais ouvida por ninguém,nem quando questionado.
Essa postura era um velho hábito do nosso autor,que pensava que em uma situação daquelas,ou se calava para "lavar as mãos",ou era discutir"a morrer!",ele preferia a primeira hipótese,pelo menos enquanto não fosse frontalmente cutucado,e dessa vez não foi.
Na sua infancia,o autor já mostrava essa postura como uma defesa,ele sentia-se isolado em inumeros momentos,ao seu entender,por ter um intelecto e compreensão do mundo exterior,superiores ás pessoas que com ele conviviam.
Seus progenitores lhe impuseram barreiras psicológicas terríveis para que não tentasse voar demais.Em boa parte da infancia ele realmente acreditou ser tão inferior ás outras pessoas quanto lhe foi proposto.
Mas chegou a época de ser adulto,e ele já tinha superado suas barreiras,apesar de admitir que elas ainda sim,tinham lhe instalado alguns tijolos mentais,que o atrasariam para o resto da vida,e que aliados a sua paranóia,lhe poriam dúvidas sobre temas com os quais ele deveria ter certeza.
E naquele momento em que ele desistiu do atual trabalho - pelo menos em parte - ele decidiu dar força a seus trabalhos paralelos,pois sabia que sua saga recem iniciara-se,e ele como bom desportista,nao aceitaria outro resultado,que não a vitória.
Estórias sicilianas.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Veja e Saramago

O texto abaixo eu recebi por e-mail e decidi postar aqui.Posteriormente eu farei uma crítica sobre o texto - que em suma é muito bom - mas isso é para outro post.


A ERA DOS GRUNHIDOS
O Brasil tem uma revista semanal, “Veja”, que se considera a maior do país. Deve até ser mesmo, sei lá quais são os critérios, não sei quantos leitores tem, quanto fatura, não me interessa. Deixei de assinar essa porcaria anos atrás, já não me lembro se por algum motivo específico, ou se foi, apenas, porque um dia peguei na porta de casa e me espantei: eu ainda gasto dinheiro com esta merda?

Tal revista perdeu a relevância, para estabelecer um marco, depois da queda de Collor de Mello. Naqueles anos de impeachment, as semanais deram vários furos, foram importantes, descobriram coisas. Depois, sumiram. Hoje, a “Veja” é reduto de uns caras chiliquentos como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes. “Ah, você não lê, como sabe?”, vai perguntar alguém.

Eu de tudo sei, tudo conheço. Piadinha interna.

Mas não quero falar aqui dessas figuras ridículas que acham que escrevem bem e que se julgam parte de algum grupo de pensadores contemporâneos, já que são cheios de fazer citações by Wikipedia e com elas impressionam seus leitores babacas. O que escrevem e dizem, para não ofender demais, repercute entre eles três e seus leitores babacas, todos compartilhados. Eles detestam o Lula e o PT, e é tudo que conseguem exprimir com sua verborragia enjoativa e padronizada. Mas dali não sai, suas opiniões e ataques histéricos contra o que chamam de esquerda brasileira não têm importância alguma, não produzem eco algum.

Só que a capa da “Veja”, embora a revista seja uma droga indizível, tem importância, sim. Afinal, ela é vista por alguns milhões de pessoas, repousa amarrotada durante meses em mesinhas de consultórios médicos, dentistas e despachantes, e as pessoas a notam nas bancas de jornais, ao lado de mulheres peladas. E algumas pessoas ainda puxam assunto em mesas de bares e restaurantes dizendo “li na ‘Veja’”, e tal. São os “formadores de opinião”. Uau.

E aí aparece aqui na minha frente, no estúdio da rádio, a ”Veja” que foi hoje às bancas. Na capa, “CALA BOCA GALVÃO”, uma foto do narrador da Globo, e está dada a senha para uma pretensa reportagem séria de sete páginas, um “box” e três gráficos sobre o poder do Twitter, motivada por uma bobagem infanto-juvenil que nem os “tuiteiros” levam muito a sério, lançada no dia da abertura da Copa. Aliás, nem o Galvão levou a sério, claro, porque discutir um uma “hashtag” de Twitter é como sugerir um seminário para analisar a musicalidade de uma vuvuzela, ou um congresso sobre comunidades bizarras do Orkut.

Ontem morreu José Saramago. O maior escritor da língua portuguesa mereceu desse semanário indefensável meia página, com uma foto e uma legenda editorializada, porque ”Veja” tem opiniões formadas até sobre índice e numeração de páginas. Diz a legenda: “ESTILO E EQUÍVOCO”, reduzindo Saramago a isso, a alguém que tinha estilo e era equivocado, para atacar as posições políticas e religiosas do escritor, comunista e ateu.

Alguém ser comunista e ateu, para a “Veja”, é algo mais condenável do que estuprar a mãe no tanque. “Ao lado da criação literária, manteve-se sempre ativo, e equivocado, na política”, diz o texto pastoso, que nem assinado foi. Uma pobreza jornalística inacreditável. “Nos países cujos regimes ele defendia, nenhum escritor que ousou discordar teve o luxo de uma morte tranquila”, encerra o autor. Como é que alguém pode escrever uma merda desse tamanho? Será que essa gente não tem vergonha do que coloca no papel?

Pois todas as palavras ditas e escritas por Saramago, capaz de obras-primas da literatura universal como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Todos os Nomes”, “Memorial do Convento”, “Caim”, “Jangada de Pedra”, mereceram da “Veja” meia página, enquanto três palavras bobas espalhadas pelo Twitter foram parar na capa da revista e em sete de suas páginas.

O que mais me atormenta, quando vejo essas coisas, é saber que graças a decisões editoriais como essa, uma babaquice como o “CALA BOCA GALVÃO” assume, diante dos olhos e do julgamento dos retardados que levam tal revista a sério, uma importância bem maior do que a vida e a obra de Saramago.

Saramago pedindo um café a sua esposa tem mais conteúdo, provavelmente, do que todas as edições juntas de “Veja” dos últimos 15 anos. Ele tinha razão, quando falava do Twitter — não se enganem, Saramago tinha até blog, não era um velhote vivendo numa caverna. Numa recente entrevista por e-mail a “O Globo”, disse: “Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”.

Pois a “Veja”, hoje, inaugurou a era do grunhido impresso.

Autor: Flavio Gomes